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O Rio Vermelho atravessa o centro histórico de Goiás, entre casarões coloniais e morros cobertos de mata
Jornal · Patrimônio

Patrimônio Mundial: o que torna Goiás única

Em 2001, a UNESCO incluiu o Centro Histórico da Cidade de Goiás na Lista do Patrimônio Mundial. Poucos lugares do Brasil guardam, com tanta inteireza, a forma de uma cidade dos séculos XVIII e XIX.

Por que a UNESCO reconheceu Goiás

Segundo a UNESCO, a cidade é testemunho da ocupação e da colonização do Brasil Central nos séculos XVIII e XIX. Seu traçado é um exemplo do desenvolvimento orgânico de uma cidade mineradora, adaptada às condições do lugar. E sua arquitetura, ainda que modesta, forma um conjunto harmonioso graças ao uso coerente de materiais locais e de técnicas construtivas tradicionais.

O reconhecimento se apoia em dois critérios: Goiás é um exemplo notável de cidade de origem europeia adaptada ao clima, à geografia e à cultura do centro da América do Sul; e é o último exemplo remanescente da ocupação do interior do Brasil tal como ela aconteceu naqueles dois séculos.

A origem da cidade está ligada às bandeiras que partiam de São Paulo para explorar o interior. Goiás foi o primeiro núcleo urbano oficialmente reconhecido a oeste da linha do Tratado de Tordesilhas.

Uma cidade entre morros e um rio

O centro histórico se estende ao longo do Rio Vermelho, entre duas séries de morros. Na margem direita fica o lado popular, marcado pela Igreja do Rosário, tradicionalmente reservada às pessoas escravizadas. Na margem esquerda estão os edifícios de representação: a antiga matriz de Sant’Ana, hoje catedral, o Palácio dos Governadores, o quartel e a Casa de Fundição, que seguem até a Praça do Chafariz.

Casario colonial branco de janelas coloridas diante de um gramado com árvore, no centro histórico de Goiás
Casario do centro histórico de Goiás.

O que o tombamento protege

Antes do título da UNESCO veio a proteção nacional. Em 1978, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou o centro histórico como patrimônio federal; alguns edifícios já eram protegidos desde a década de 1950. Em 2003, o perímetro protegido foi ampliado para incluir mais 300 imóveis e 6 chácaras urbanas, que formam um cinturão verde ao redor da cidade. O conjunto também é protegido por lei estadual (1980) e municipal (1996).

Na prática, isso significa que cada restauro no centro histórico segue regras do IPHAN. E a própria UNESCO destaca que o conhecimento e o uso contínuo das técnicas construtivas tradicionais pelos construtores locais são centrais para manter a integridade do lugar.

Arte sacra e museus

Museu de Arte Sacra da Boa Morte

Instalado na antiga Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, iniciada em 1762 e concluída em 1779 pela Confraria dos Homens Pardos da Boa Morte, o museu abriga o acervo da Diocese de Goiás: mais de 900 peças entre arte sacra, objetos religiosos, prataria e indumentária. Ali está parte da obra de José Joaquim da Veiga Valle (1806–1874), santeiro e dourador que viveu na cidade a partir de 1841 e esculpia sobretudo em cedro. O museu passa por um projeto de restauro anunciado em 2026; confirme o funcionamento antes da visita.

Museu das Bandeiras

Ocupa a antiga Casa de Câmara e Cadeia, construída entre 1761 e 1766, e funciona como museu desde 1954. O acervo reúne documentos dos períodos colonial, imperial e republicano, mobiliário, arte religiosa e objetos ligados à mineração.

Museu Casa de Cora Coralina

A Casa Velha da Ponte, de meados do século XVIII, foi a casa da poeta Cora Coralina, nascida na cidade em 1889. O museu foi inaugurado em 20 de agosto de 1989, no centenário do seu nascimento, e guarda móveis, objetos, fotografias, livros e cartas da poeta.

A Procissão do Fogaréu

Trazida a Goiás em 1745 pelo padre espanhol Perestelo de Vasconcelos, a Procissão do Fogaréu começa à meia-noite que abre a Quinta-feira Santa, com a iluminação pública apagada. Dezenas de farricocos, com trajes especiais e tochas, representam os soldados romanos e percorrem a cidade da Igreja da Boa Morte até a Igreja de São Francisco de Paula, que simboliza o Jardim das Oliveiras. É uma das datas de maior procura do ano: quem quer viver a Semana Santa em Goiás precisa reservar com antecedência.

Uma tradição que continua viva

Para a UNESCO, a autenticidade de Goiás não está só na arquitetura: está também na música, na poesia, na gastronomia e nas festas populares que seguem fazendo parte da identidade da cidade. Em 2027, a Cidade de Goiás completa 300 anos.

Como aproveitar tudo isso

As casas da Casa Tempo ficam no centro histórico e no seu entorno, com museus, igrejas e praças a poucos passos. São casas antigas restauradas segundo as normas do IPHAN, com as mesmas técnicas que a UNESCO valoriza: adobe, pau-a-pique, cal, barro e madeira. Hospedar-se nelas é viver o patrimônio por dentro, e não só visitá-lo.

Antes da chegada, a anfitriã envia pelo WhatsApp um roteiro com cerca de 20 lugares para conhecer a cidade.

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